Gentileza que mata
Tarantino e o perigo da falsa virtude
Há uma cena no filme Bastardos Inglórios (2009) que não tem uma gota de sangue. Ninguém dá tiro, não tem faca e nem taco de baseball.
Estou falando dessa aqui:
Hans Landa convida Shosanna para sentar à mesa. Pede um strudel com creme.
A massa do strudel é feita com banha de porco. O creme que vem depois é laticínio. Para qualquer pessoa que observe o kashrut (as leis dietéticas judaicas), comer algo derivado do porco, ou misturar carne com leite, são violações graves. Landa sabe disso e insiste no creme. Ele faz questão de esperar que ele chegue antes que Shosanna coma. Ela come. Tem que comer, né? Cada garfada é um pecado. É um pedaço da própria identidade sendo engolido em um misto de medo e elegância. Ela é forçada a consumir, física e simbolicamente, a pessoa que ela finge ser, sob o olhar de quem sabe exatamente quem ela é.
Landa pede um espresso para si e leite para ela. No iníco do filme, na fazenda de LaPadite, Landa também pediu leite. Shosanna estava escondida embaixo do assoalho. Ela viu, ouviu e conseguiu escapar do massacre operado pelas metralhadoras. Ela sobreviveu e agora, anos depois, ele pede leite de novo, na frente dela, olhando para ela. A mensagem, não dita, é qualquer coisa como: “eu sei de onde você veio e eu sei quem você era quando era pequena e estava com medo embaixo do chão.” Ela volta a ser a criança vulnerável daquela tarde.
Shosanna come o strudel com elegância. Cada movimento calculado para não levantar suspeitas sobre sua farsa. Landa, por outro lado, ataca o prato com uma mão apenas, quebrando o alimento com o garfo e comendo sem a devida etiqueta. Ele pode ignorar todas as regras (as sociais, as religiosas, as morais) justamente porque está acima delas. O poder dá acesso à deselegância consentida em sociedade.
Tarantino e a editora Sally Menke (em sua última colaboração antes da morte dela) constroem um ambiente angustiante para quem assiste. Tanto no barulho insuportável do raspado do talher no prato, ou na mastigação alta de Landa. O silêncio que existe só para que esses sons preencham-no. Eu estava com fone de ouvido e tive que abaixar o volume num ponto porque o desconforto era físico.
Tem um momento quando o garçom serve o chantilly, uma parte cai de volta na tigela. Nem sei se foi intencional ou se Tarantino viu no corte e manteve. De qualquer forma, funciona perfeitamente, porque a tensão já era suficiente com a cena toda sendo construída sem defeitos. De repente, uma colherada que escapa gera um misto de ansiedade e confusão.
Ao final, Hans Landa diz que ia perguntar alguma coisa a Shosanna/Emanuelle, mas esqueceu. Ora, ele não tinha pergunta nenhuma. O objetivo da cena inteira era deixá-la paralisada, sem conseguir nomear o que acabou de acontecer, sem ter nada concreto para se defender. Um terror que não tem forma definida é mais difícil de processar do que uma ameaça direta. Ele sabe. Ela sabe que ele sabe. Ele quis apenas deixar claro que ele sabe que ela sabe que ele sabe. Com sua missão cumprida, ele se levanta e vai embora.
Há Landas hoje em dia, no mundo real. Pessoas nos fazem engolir, garfada por garfada, a anulação de quem somos. A violência real, nos diz o filme, é a que estilhaça a alma por dentro.
Bastardos Inglórios tem um volume considerável de violência explícita, contudo essa cena não tem nenhuma. Tem strudel, tem leite e um homem que sabia exatamente quanta gentileza era necessária para machucar alguém onde mais dói.





Isso é INTERPRETAÇÃO DE TEXTO, pura e simplesmente. Parabéns pelo trabalho!
Uau, Erlan! Que texto potente! Que isso! 🤌🏻