Quem tem limite é município?
Romanos 14 e a teologia da alteridade
Trago más notícias. A conversão não cura a autocentração. Crer em algo maior que si mesmo não resolve, automaticamente, o problema de si mesmo. Quando eu digo “eu vivo para Deus”, pode ser que eu ainda não tenha conseguido escapar das armadilhas do meu próprio ego. A partir do capítulo 14 da epístola de Paulo aos Romanos, vamos conversar sobre esses problemas e o que fazer a respeito deles.
Quando escreve para a igreja de Roma, Paulo está tentando interromper uma briga doméstica e quase patética, em proporção aos problemas mais globais presentes no Império Romano. Judeus e gentios discutiam sobre cardápio, calendário e quantidade de pele presente ou ausente na genitália de alguns homens. No fundo, nenhum deles estava defendendo a Deus. Estavam defendendo a si mesmos, ou à percepção identitária que suas culturas imprimiam sobre si mesmos.
O cristão romano que comia carne sem se importar se é vaca, peixe, frango ou porco, olhava com pena (ou desdém) para o irmão hebreu que evitava carnes suínas. Isso é um problema porque ele não enxerga o outro como alguém que existe com a mesma seriedade com que ele próprio existe. Dessa forma, o outro seria apenas mais um trouxa de mente limitada.
Parafraseando Emmanuel Lévinas, “a ética começa no rosto do outro”. Segundo ele:
“O questionamento de si é precisamente o acolhimento do absolutamente outro. A epifania do absolutamente outro é rosto em que o Outro me interpela e me significa uma ordem, por sua nudez, por sua indigência. Sua presença é uma intimação para responder. O Eu (Moi) não toma apenas consciência desta necessidade de responder, como se se tratasse de uma obrigação ou de um dever particular sobre o qual ele teria que decidir. Em sua posição mesma ele é integralmente responsabilidade ou diaconia, como no capítulo 53 de Isaías.” (LÉVINAS, Emmanuel. Humanismo do outro homem. 4ªed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012, p. 53).
O comportamento ético, portanto, vem de fora, da alteridade, com parâmetros diferentes dos que estão dentro da minha consciência. “Quem és tu, que julgas o servo alheio?”, pergunta Paulo, retoricamente, em Rm 14:4. O ato de julgar o outro revela muito mais sobre o julgador do que sobre o julgado. Quando o crente que “come de tudo” sem escrúpulo interpreta sua desenvoltura como sinal de que chegou mais longe na fé, como se a falta de escrúpulo fosse uma conquista teológica, a liberdade de consciência falhou.
Paulo não está escrevendo para exaltar os fortes. Não há castigo para os fracos, tampouco. O apóstolo está dizendo que dentro de uma igreja existem fracos, existem fortes e vida que segue. Ou mais ou menos isso. Eles existem em desequilíbrio. O mais forte cuida do mais fraco: “Nós, que somos fortes, devemos suportar as fraquezas dos fracos, e não agradar a nós mesmos.” (Rm 15:1)
A força, no vocabulário paulino, é uma responsabilidade. Quanto mais você compreende, mais você deve ao que ainda não compreende. Quanto mais liberdade você tem, mais você está obrigado a administrá-la com cuidado, especialmente quando há alguém ao seu redor para quem sua liberdade pode ser um tropeço.
Há um instinto em nós de que nossa vida é nossa. Más notícias: não é. Quer dizer, até é, mas é uma posse compartilhada com aqueles com quem convivemos. A consciência limpa não é suficiente. O critério do meu comportamento não pode estar restrito ao que eu penso sobre ele, mas precisa levar em consideração o que ele produz em quem me observa.
O gesto ético mais difícil é ter que suspender, por um momento, a narrativa que eu construo sobre mim mesmo. O outro deixa de ser um espelho que só confirma o que eu já penso e passa a ser… o outro. Antes de decidir se o outro está certo ou errado, perceba que ele existe. Isso é mais difícil do que parece em qualquer local onde as pessoas já se conhecem de tanto tempo que pararam de realmente se ver. Eu vi isso com meus olhos durante décadas dentro das igrejas. Agora que sou pastor, vejo com mais clareza ainda. As pessoas têm muita dificuldade de lidar com aquelas que pensam diferente. E eu também me incluo nessa crítica, afinal.
Perceba que Paulo não resolve a disputa na igreja de Roma. Ele não diz “É o seguinte, gente, a carne está liberada, beleza?” nem “Guardem o sábado e fim de papo”. O que ele faz é mudar o critério de avaliação. O reino de Deus, diz ele, “não é comida nem bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo” (Rm 14:17). O apelo de Paulo repousa sobre duas realidades teológicas: a cruz e o reino. A cruz porque Cristo não viveu para si mesmo (e portanto aqueles que estão “em Cristo” não podem, coerentemente, viver para si mesmos). O reino porque o governo de Deus já está em operação, e suas marcas são justamente as que a disputa sobre comida estava destruindo: unidade, paz e edificação mútua.
Em um espectro mais amplo, há uma terceira realidade teológica aqui: o juízo final. “Cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus” (Rm 14:12). Já que a assimetria entre eu e o outro não é resolvida por mim, eu não preciso corrigi-lo, ou convencê-lo de sua percepção cultural sobre elementos frívolos. Isso é trabalho de Deus. O meu trabalho é cuidar do efeito que minha liberdade produz.
Qual o limite do meu eu? Kant diria, a partir de sua segunda formulação do imperativo categórico: “aja de modo a tratar a humanidade (na sua pessoa e na pessoa de qualquer outro) sempre como fim, nunca apenas como meio”. O outro não pode mais ser visto como um instrumento da minha autorrealização, nem obstáculo ao meu florescimento. Ele é um fim em si mesmo.
Paulo não usa essa linguagem, mas acho que ele concordaria com Kant, ou até mesmo iria além. Kant pede que eu trate o outro como fim, mas Paulo pede que eu me trate como instrumento do bem do outro. É o imperativo categórico 2.0. “Cada um de nós agrade ao seu próximo no que é bom para edificação.” (Rm 15:2)
Isso é amor. É uma orientação estrutural da existência. Chame de empatia se quiser. Eu não gosto muito dessa palavra porque o termo ficou gasto com o uso moderno meramente decorativo. Paulo chamava de amor, e sabia que amor é exatamente o tipo de coisa que ninguém pratica por impulso. Por que eu teria o impulso de favorecer uma outra pessoa, que eu nem gosto, inclusive? Especialmente quando o outro está errado, ou quando sua fraqueza é inconveniente, ou, quando, em meu próprio julgamento, minha liberdade é legítima e a limitação que o outro me impõe não é.
Quem tem limites é município, brinca o ditado popular. Mas quem criou as cidades fomos nós. Deus criou um jardim e jardins exigem cuidado. Alguém tem que regar, tem que podar e abrir espaço para que outra árvore cresça. Paulo, seguindo o exemplo de Jesus, pregava que era uma ideia legal amar o próximo. Ora, essa ideia ainda é legal, a gente que se esqueceu disso.



Obrigada por esse texto maravilhoso, Erlan!
Que texto genial. Como é difícil viver essa responsabilidade